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26/08/2012 – Dream Theater – Live in São Paulo


Eles escolheram o Brasil para fechar a longa turnê de promoção do disco “A Dramatic Turn Of Events”. Depois de um ano e meio na estrada, o show do Dream Theater fazia filas quilométricas em volta do CredCard Hall desde cedo. Os fãs estavam aguardando aquele momento por um longo tempo, cada um tinha seus motivos para estar lá, que eram expostos nas rodinhas de conversas que se formavam para passar o tempo, uns queriam ver como a banda se sairia sem Portnoy na bateria, outros só queriam ouvir os clássicos da banda. Para mim, o desafio era um pouco maior: Superar minha má impressão da turnê de 2008.

Me lembro que na época tudo pareceu muito mal organizado não correspondendo a grandeza que a banda já tinha. O show aconteceu do lado de fora do Credcard Hall, num palco montado especialmente para eles, com Portnoy trazendo sua bateria reserva, bem menor, e com James LaBrie nada feliz em estar lá, tanto que visivelmente de mau humor, nem fez a famosa saudação no fim do show junto com os outros membros da banda. Por tudo isso, antes de entrar pista adentro para ver o show da turne “A Dramatic Turn Of Events” estava me preparando para uma recepção não muito amigável novamente.

Divulgação | Dream Theater

Faltava um pouco mais de uma hora para o show começar quando eu já estava com o meu lugar garantido em frente ao palco, logo pude ver a bateria de Mike Mangini ao fundo, completa dos pés à cabeça e ali a mostra para quem quisesse olhar, sem o tradicional pano preto que envolvia o equipamento de Portnoy antes dele subir ao palco. Ao lado, três conjuntos de amplificadores e cabeçotes Mesa Boogie ligavam ao rack especial de John Petrucci, no backstage, as guitarras que seriam usadas por ele durante a noite. Do outro lado um conjunto maior ainda de pedais ficavam junto à câmera que filmaria John Myung executando as suas preciosas linhas de baixo, tendo como companheiro às suas costas uma pequena plataforma com o suporte personalizado de Jordan Rudess com o logo emblemático do Dream Theater segurando seu teclado Körg e seus iPads, enquanto do outro lado estava de pé seu outro teclado, usado para solar como se fosse uma guitarra. E no meio de tudo isso, o pedestal curvo, prata e texturizado como se fosse pele de cobra, com a base fazendo também o desenho do logo “Majesty” aonde James LaBrie colocaria seu microfone para fazer todos nós naquela sala cantar até a voz acabar.

Um pouco depois das oito horas da noite as luzes se apagaram e dos três cubos colocados no fundo do palco começaram a aparecer imagens de uma pequena animação, que mostrava os alter egos de cada um deles: O “mago” Jordan Rudess, o pirata James LaBrie, o brutamontes John Petrucci e o “nice guy” Mike Mangini estavam correndo em desespero para pegar o avião que os levaria direto ao palco , enquanto o “ninja” John Myung aparecia e desaparecia com rapidez para mostrar o caminho correto ao grupo, e assim que “Dream Theater” ia aparecendo no telão os próprios músicos apareceram pelas laterais do palco saudando a gritaria e a loucura dos fãs que lotaram todos os lugares do Credcard Hall.

Divulgação | Renan Facciolo (http://www.renanfacciolo.com.br/)

Para aproveitar a energia do público a banda começou com Bridges in The Sky. O inicio da música deve ter sido ouvido por poucos pois LaBrie veio à frente do palco e chamou ainda mais o público para gritar e pular logo nos primeiros acordes da guitarra de Petrucci. E enquanto isso, Mangini estava fazendo o que tinha prometido, se divertindo. Olhando atentamente a sua bateria tinha um sorriso no rosto a cada virada que fazia enquanto espiava para a frente para ver o público indo a loucura com o solo de teclado de um Jordan Rudess sério e altamente técnico, enquanto Myung… bem estava concentrado em seu mundo deixando o baixo falar por sí.

Em seguida, sem intervalo para falar com o público, Mangini puxou das suas viradas a batida inconfundível de  6:00, e aí quem se sobressaiu foi James LaBrie que provaria de uma vez por todas que tinha recuperado 100% da sua voz, depois de tantos problemas que passou com ela ao longo dos anos, cantando uma música de dezoito anos atrás da mesma forma de quando ela foi gravada, com os mesmos agudos nos versos e agressividade no refrão.

Com a chuva de palmas e gritos de “Olê Olê, DT….DT” e “Jordan, Jordan, Jordan” as luzes do palco se acenderam e LaBrie soltou em alto e bom som o “Boa Noite São Paulo!!!” que todos estavam esperando. Em seguida avisou que todos ali tinham uma grande noite pela frente com mais de duas horas de show, e ainda afirmou que no fim do ano, depois de um merecido descanso dessa turnê, a banda entraria em estúdio novamente para gravar mais um trabalho.

A banda então avançou no repertório, tocando The Dark Eternal Night, o que para mim soou bem fraco, já que sem Portnoy essa música realmente não é a mesma. This Is Life foi a primeira balada do set o que fez todo o público, sob o comando de LaBrie, agitar as mãos de um lado para outro.

Em sequência, o mesmo LaBrie que andava pelo palco, agora corria de um lado para o outro, sem perder o fôlego, enquanto o público pulava ao som de The Root Of All Evil. Ao final, Mike Mangini era uma unanimidade pois o que se ouvia era apenas os gritos de “Mike, Mike, Mike” que ecoavam por todos os lados. Lost Not Forgotten, para minha surpresa, era uma das músicas mais aguardadas, fazendo o público gritar e agitar os braços para cima durante todo o tempo.

Na sequência todos sairam do palco deixando apenas Mangini que começou a fazer um solo tímido de bateria, que em seguida despencou para não muito empolgante, mas muito divertido no final quando após uma sequência de repetições comeu uma banana que o roadie veio oferecer para ele, enquanto Jordan Rudess assistia tudo do canto do palco, sentado nas caixas vazias de equipamento enquanto tomava um refrigerante. Para fechar a primeira parte do show, a banda retornou para encerrar com A Fortune In Lies . 

Divulgação | Renan Facciolo (http://www.renanfacciolo.com.br/)

Quando as luzes se apagaram, os roadies rapidamente colocaram os banquinhos para o que viria a ser a parte acústica. As luzes se acenderam e Petrucci voltou com um violão, enquanto LaBrie vinha de trás da bateria para pegar seu microfone, e sentado no banco começou a conversar despretensiosamente com o público, querendo entender uma das “lembranças” que os fãs estavam jogando no palco.

A partir de então eu notei o que realmente valeu a pena, mais que as músicas tocadas até aquele momento: a banda realmente estava de bom humor ali em cima, talvez aliviados por estarem acabando a longa turnê do disco, mas dava para ver o ambiente bem leve e amigável que rodeava o palco, completamente diferente das lembranças que eu tinha na cabeça.

Petrucci começou a puxar Beneath The Surface, mas foi interrompido por LaBrie que anunciou Silent Man sendo a primeira acústica, o que fez o guitarrista soltar uma risada para o companheiro enquanto o público que também percebeu “a pegadinha” do vocalista sobre o amigo, ria também. Acompanhado pelas palmas dos fãs, o dueto LaBrie e Petrucci foi um dos pontos altos do show. Em seguida a banda voltou para, aí sim, tocar Beneath The Surface, que arrancou aplausos e gritos para Petrucci e para seu violão acústico.

Outcry começou logo depois que os banquinhos se foram e a banda voltou para fazer o bom e velho metal de sempre. Jordan Rudess estava realmente empolgado fazendo seu próprio show solando no teclado quase na vertical, enquanto alternava em alguns momentos com o sintetizador eletrônico que estava lá ao seu lado. Ao final da música, Rudess emendou o seu solo, que foi muito diferente do que eu esperava. Um show de feeling ao invés de virtuosismo começou a ser executado hipnotizando o público que não conseguia nem mesmo piscar enquanto muitos estavam até com os olhos fechados absorvendo as melodias que saiam do Körg do mago. E então no meio do solo, LaBrie volta ao palco e olhando para os fãs começa a elogiar Rudess dizendo o quanto ele é importante para a banda e o que mais ele (LaBrie) gostava no estilo musical do seu companheiro, pedindo ao final do solo uma salva de palmas para ele. Tal atitude deixou o mago realmente sem jeito, enquanto ele sorria, desceu da plataforma e foi até LaBrie na frente do palco, fingindo que estava “pagando” por tais elogios, o que novamente arrancou risadas da banda e do público.

Divulgação | Renan Facciolo (http://www.renanfacciolo.com.br/)

A banda se recompôs para começar a tocar Surrounded que fez o público se erguer novamente, principalmente nas partes de teclado e dos agudos perfeitamente executados por LaBrie.  On The Back Of Angels começou ainda enquanto os aplausos da música anterior ainda não tinham acabado, fazendo a bateria de Mangini ser acompanhada pelos gritos do público, enquanto Petrucci enlouquecia os seus fãs fazendo o solo na beirada do palco. War Inside My HeadThe Test That Stumped Them All foram executadas quase que sem parada para descanso fazendo as luzes ficarem apagadas um tempo enquanto os preparativos para o final do show eram tomados.

A luz estava apenas em Rudess, que começou a tocar em seu teclado o inicio épico do que parecia ser The Spirits Carries On. Depois, Petrucci voltou ao palco para começar a sua parte da música. Improvisando aos poucos durante o solo inicial, ele foi deixando um pouco mais pesado a cada acorde e subindo um tom ali, de pouquinho em pouquinho até que inverteu totalmente o rumo da música, e do nada, começou a solar no máximo do seu virtuosismo. Sentado perto da sua pedaleira, ficou trocando olhares com Rudess, que estava do outro lado palco, no seu teclado, balançando a cabeça negativamente enquanto sorria, e juntos mostraram ao vivo um pouco de como é o processo de composição da banda no estúdio.

Não parecia ser combinado porque nem sempre era harmônico o suficiente. Rudess seguia Petrucci da melhor forma que conseguia já que ele trocava o tempo e o ritmo do solo a todo momento, talvez de propósito para pega-lo de surpresa. E como se fosse uma pequena batalha, os dois ficaram lá por vários minutos experimentando sons diferentes, ora errando uma nota ou fazendo algum acorde um pouco estranho, o que resultava em quem errava a punição de receber um sorriso irônico do companheiro. A brincadeira continuou até o momento em que Jordan não conseguia mais entender o que estava acontecendo e resolveu parar de tocar na hora, sem finalizar a idéia que estava fazendo.

Petrucci sai do palco ovacionado pelo público e LaBrie volta com o microfone e manda “que porra é essa que aconteceu aqui?” e em seguida, assim como fez com Rudess, começa a elogiar Petrucci (que não estava presente) durante muito tempo,  enquanto o mago fica parado no teclado acenando para alguns fãs e comendo pipoca com um de seus roadies. Quando o guitarrista volta para o palco, está com a guitarra na mão e faz menção de entregar a LaBrie para que ele toque e cante a música que já devia ter sido executada há algum tempo atrás, o público fica insano e aos berros de “LaBrie, LaBrie” a tentativa falha e Petrucci reassume seu posto para então terminar o solo de The Spirits Carries On corretamente. Porém antes disso ele levanta seu próprio celular mostrando que todos deveriam fazer isso também, logo todo o salão é tomado por pequenos pontos luminosos que ganham vozes quando a música finalmente começa.

Divulgação | Renan Facciolo (http://www.renanfacciolo.com.br/)

Breaking All Ilusions, a música composta pelo ninja Myung e a melhor do último disco na minha opinião, foi escolhida para fechar o set. Impassível durante todo o show, mesmo quando dividiu a frente do palco com John Petrucci, John Myung não esboçou uma reação durante a execução dela, tão assustadoramente concentrado ele é. Quando a música termina, LaBrie agradece a presença de todos e a banda deixa rapidamente o palco.

Na volta, o front man do Dream Theater elogia a casa e diz se lembrar da última vez que tinha tocado ali, pediu para que todos voltassem seguros para suas casas e garantiu que em 2015 eles estariam de volta para tocar ali novamente. E sob os gritos incansaveis do público fiel Metropolis Pt. 1: The Miracle and the Sleeper começou a ser executada fazendo a despedida daquela noite incrivelmente especial ser ainda mais agitada com os fãs e a banda dando o sangue para fazer o fim de noite à altura do que deveria ser.

Depois de mais de três horas de show, as luzes finalmente se acenderam, e cada um dos membros recebeu as palmas e toda a demonstração de carinho do seu público. Um a um, todos os nomes foram ditos. LaBrie e Jordan, Myung e Petrucci e por último, e talvez por isso ainda mais ovacionado, Mike Mangini que veio a frente do palco e andou de ponta a ponta agradecendo a todos os setores. Ao final, o Dream Theater, dessa vez sim todos juntos, com a sensação de dever cumprido e com o sorriso estampado no rosto, se curvaram para agradecer o público fiel que mesmo cansado e quase sem voz não parou de aplaudir e agradecer a banda pela melhor noite da vida deles neste ano.

Foi um show incrível, de arrepiar mesmo. Obrigado por isso pessoal, e nos vemos em 2015.

Set List

1. Dream Is Collapsing  (Hans Zimmer song)

2. Bridges in the Sky

3. 6:00

4. The Dark Eternal Night

5. This is the Life

6. The Root of All Evil

7. Lost Not Forgotten

8. Drum Solo

9. A Fortune in Lies

10. Acoustic

11. The Silent Man

12. Beneath the Surface

13. Outcry

14. Surrounded (preceded by Jordan Rudess’ keyboard solo)

15. On the Backs of Angels

16. War Inside My Head

17. The Test that Stumped Them All

18. The Spirit Carries On (preceded by John Petrucci’s guitar solo)

19. Breaking All Illusions

20. (Encore) Metropolis Pt. 1: The Miracle and the Sleeper

Rhamses

Palpiteiro de mídias sociais, Designer de interfaces, Podcaster e Microblogger. Apreciador de boa música, mas roqueiro acima de tudo.

5 respostas para “26/08/2012 – Dream Theater – Live in São Paulo”

  1. @progdadepressao disse:

    Último show do DT que fui foi em 2005, o que considero o último grande ano da banda com o Portnoy. Não tive ânimo para ir aos outros, pois os álbuns não me agradaram tanto e os setlists estavam decepcionantes. Não podia falar sobre essa má vontade e da banda, pois não cheguei a presenciar, mas todos comentavam sobre. (Me lembro alguns dias antes do show desse o faraó Rhamses dizendo sobre a turnê de 2008 e sua decepção).

    Mas minha prog-intuição dizia que esse seria diferente. Gostei muito do novo álbum, os setlists estavam até bacanas e a banda estava com uma pilha nova, chamada Mike Mangini. (Apesar de eu sentir falta do Portnoy levantando e agitando a galera, o bobo alegre sorridente do Mangini deu conta do recado). Ainda bem que fui! Concordo com tudo que foi dito aqui. Claro que se fossem tocar todas músicas que eu queria os caras iam ta tocando até agora lá, mas o setlist valeu as horas de espera e os dias de viagem. O mais importante é que estavam mais descontraídos, sorridentes e felizes de estar ali. O que nos leva a crer que a banda ainda tem muito, muito chão pela frente. Volta logo DT!

  2. Quem sabe um dia ainda os vejo tocar pessoalmente. *_*

  3. @Jonatas_BF disse:

    Esse foi o primeiro show do Dream Theater que fui, saí de Natal com toda minha coragem e fui rumo ao SP ver o show da banda que mudou minha vida em vários sentidos. Sem dúvida, foi o melhor show da minha vida, e será por muito tempo. Finalmente pude conhecer várias pessoas importantes para mim que também frequentaram o show. Até agora, 3 dias depois, mal tenho palavras para descrever minha emoção nas 3 ultimas músicas, The Spirit Carries On, Breaking All Illusions e Metropolis, apenas essas, já valeriam o ingresso, a viagem, a espera na fila, o ano inteiro… e olha que teve muito mais coisa além disso.

    Já estou eufórico aguardando o novo CD e ansioso pelo próximo show em SP, que, com certeza, estarei lá!

  4. Fala, Rhamses, muito legal seu texto!

    Concordo com 2008, aquele show foi horrível, decepcionante. Não fui desta vez, não me empolguei até pela má impressão que ficou. E, sinceramente, não me arrependo porque acho que gostaria de ver no máximo 4 músicas desse set. Queria muito ver 6:00, mas não valeria o preço e o trabalho de ir.

    Mas valeu ler seus comentários, bem bacanas, e ter uma noção de como foi o show.

    Abs,

    Rafael

  5. Rafael Profeta disse:

    Cara, meu primeiro show do DT. Fantástico. A galera que encontrei lá, sempre saudosista com o show de 2002 e com a falta do Portnoy. Também sinto essa falta.

    Mas o foda foi a gigantesca pista premium. Parece que a organização foi vendendo Pista Premium enquanto a galera foi comprando. Resultado, locais comuns a preços super valorizados.

    http://imageshack.us/f/515/20120826204256.jpg

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