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Cromagnon – “Orgasm”


Quem vive nos cafundós e nos cantos mais escuros do Progressivo com certeza já teve algum contato com o Cromagnon, goste ou não da insanidade psicodélica contida no seu único registro, “Orgasm”, de 1969 (posteriormente relançada como “Cave Rock”, 31 anos – !!! – depois). Mais recentemente, algumas pessoas reviveram essa obra depois de Mikael Akerfeldt ter colocado-o na lista como uma das grandes influências para a produção de “Heritage”, um dos melhores álbuns de 2011, e consequentemente para o debut (e provavelmente único trabalho) do Storm Corrosion.

A banda começou como um projeto de dois compositores pop de considerável sucesso na época, na metade da década de 60: Brian Elliot e Austin Grasmere, que estavam compondo uma série de faixas mais experimentais e um tanto quanto chocantes para a época. Com o projeto em mente, a dupla apresentou a ideia para Bernard Stollman, fundador da gravadora ESP-Disk (responsável pelo lançamento de outros discos experimentais e “freeform” da época, inclusive o esquisitíssimo álbum / trilha sonora de Timothy Leary). Quando Elliot e Grasmere apresentaram o conceito do trabalho “Everything Is One”, receberam imediatamente o sinal verde para a gravação.

Reza a lenda que durante as gravações de “Orgasm” no A-1 Sound Studio, em Nova Iorque, eles chamavam pessoas avulsas que passavam na rua para participar do disco. Outra versão diz que eles se mudaram para alguma comunidade hippie aonde gravaram com um grupo conhecido como “Connecticut Tribe”. Em 2009, porém, graças a uma entrevista com a banda The Boss Blues, tornou-se conhecido que essa “Connecticut Tribe” na realidade era um grupo de músicos dessa banda, mais alguns amigos da dupla e, olha só, pessoas que realmente passavam pelas redondezas no período da gravação.

Pois bem, o que torna esse disco tão especial? São dois compositores de música pop completamente afogados na psicodelia ácida da época que lançaram apenas um trabalho e depois caíram completamente no esquecimento, sem nenhuma novidade até recentemente, construindo uma aura cult em cima de “Orgasm”.

O álbum se inicia com “Caledonia” e sua introdução típica de algum programa de televisão muito antigo, para ser seguido de uma dose de ruídos e interferências até a faixa em si: praticamente uma marcha de guerra, severamente distorcida, com gaitas de fole e uma voz rasgada e sussurrada, uma versão primitiva do gutural das bandas de Death Metal (lembrem-se que estamos falando de um disco de 1969). Até aí, tudo bem, as músicas começam a cair no completo descontrole a partir da segunda faixa, “Ritual Feast Of The Libido”. Basicamente são pouco mais de 3 minutos de gemidos desesperados de dor, som de pedra, madeira e fogo, dando a ligeira impressão que estão ateando fogo em alguém possuído, enquanto “Organic Sundown” dá continuidade com sons que lembram cânticos ritualísticos de alguma remota tribo africana, como pano de fundo para diversas camadas de vozes dispersas e perturbadoras. Apenas barulho e nenhuma música coerente? Pode ser entendido assim, com certeza.

O início de “Fantasy” se constrói apenas utilizando-se de sons gerados pela boca: o barulho de cuspe entre os dentes, risadas descontroladas e berros ensandecidos, até o momento que um despertador cuco dá início a uma série de sintetizadores dignas do Krautrock, a base para toques de telefone, rádios sendo sintonizados. Uma sonoridade incomoda digna daquele filme assustador do Mickey Mouse andando, que se repete até o fim, dando lugares a vozes berrando por “freedom”. A faixa “Crow Of The Black Tree” retoma a sonoridade mais folk apresentada na primeira música, com direito a repetição de batidas de violão e uma atmosfera mais próxima dos moldes “tradicionais” de como se compõe músicas (considerando as abissais diferenças de proporção, claro) – e evidentemente muito cansativa. A exemplo da faixa anterior, termina com várias vozes (em diferentes tons, vai entender), agonizando e berrando frases que beiram o incompreensível.

Apesar de inusitada (como se o resto do disco não fosse), a melodia vocal de “Genitalia” é impressionante bela, mesmo com o som de filhotes de pássaros famintos / bexigas sobrepondo a voz, é um dos poucos momentos de normalidade aqui. “Toth, Scribe I” parece mais como se tivessem feito um vinyl-rip de qualidade duvidosa do áudio de algum filme antigo no espaço. Deveras atormentador, é um tipo de som que definitivamente não faz muito bem se ouvido por muito tempo (e a faixa tem mais de 10 minutos). A música de encerramento, “First World Of Bronze” é uma série de vozes em estilo “semi-gregoriano” sobre um improviso sujo e extremamente distorcido de guitarra por quase três minutos, fechando o álbum e deixando um ponto de interrogação e uma sensação esquisitíssima em quem ouve.

É um disco bom? Importante? Relativo dizer, mas com certeza é um trabalho estranhíssimo e que acabou entrando para a história graças a sua excentricidade. Muitas pessoas consideram este como o ponto de partida para estilos musicais que surgiriam algumas décadas a frente, como noise rock, no wave (seja lá o que isso queira dizer) e industrial, ainda que seja difícil encontrar alguma semelhança (com exceção do primeiro e, talvez uma de suas variações, o drone).

Não é um trabalho exatamente agradável de se ouvir, e em condições mentais debilitadas deve ser mantido longe. Porém é algo único, que pode ser interpretado tanto como um álbum futurista, muito a frente do seu tempo, revolucionário e contra a cultura, como também pode ser encarado como sem o menor sentido, auto indulgente, resultado do abuso de alucinógenos e muito longe de qualquer tipo de música decente.

Fica a cargo de vocês ouvir e tentar entender o resultado doentio que Brian Elliot e Austin Grasmere conseguiram e gravaram em “Orgasm”.

Dois links úteis para quem quiser se aprofundar na história esquisitíssima:

Entrevista com membros do Cromagnon e o mistério da Connecticut Tribe
Artigo do site Weirdest Band In The World sobre o Cromagnon

Cromagnon

Orgasm Cromagnon

Tracklist

Lineup

Rroio

Viking oriental colecionador de discos, músico frustrado e um eterno incansável explorador dos mais obscuros confins do mundo da música.

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