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Comus – “First Utterance”


O Comus começou como um projeto dos guitarristas Roger Wootton e Gleen Goring, que com 17 anos estavam estudando na faculdade de arte no final da década de 60, e iniciaram o projeto altamente influenciado por bandas como Pentagle (que merece um post futuro aqui) e Velvet Underground. Tocando pelo “circuito folk londrino” eles acabaram conhecendo um organizador chamado David Bowie (sim, ele mesmo), que apadrinhou a banda desde o seu início, chamando-os para tocar no The Arts Lab, onde o Comus começou a formar-se como uma banda propriamente dita (sendo que eles sequer tinham esse nome na época).

Nessa época eles conheceram mais dois personagens importante na sua história: Chris Youle (que viria a ser responsável pelo management), o violinista Colin Pearson, o baixista Andy Hellaby e a então vocalista adolescente Bobbie Watson. Youle inclusive foi quem sugeriu o nome Comus para Roger Wootton, baseado em uma peça de John Milton e uma das inspirações principais para as primeiras composições. Um pouco mais a frente, o pianista Rob Young completou o lineup, que teve de aprender flauta, oboé e bongô para entrar na banda (!) e iniciar os ensaios e apresentações ao vivo preliminares para a gravação do aguardado debut.

Na metade de 1970, Chris Youle conseguiu um contrato com a gravadora Pye/Dawn label depois de o Comus abrir um show de David Bowie no Royal Festival Hall, levando-os a entrar no estúdio para gravar “First Utterance”, uma mescla de Folk, Progressivo, psicodelia, elementos tribais e uma atmosfera tensa e soturna.

Lançado em fevereiro de 1971, o disco teve uma aceitação inacreditavelmente decepcionante (a desculpa a época era de que a principal causa foi a quebra dos correios – e sim, essa desculpa é péssima), possivelmente pelo clima esquisito das músicas, as suas letras de temática perturbadoras e negativas, que aliadas às interpretações vocais e às misturas de instrumentos estavam um pouco longe do som típico daquele ano (bandas semelhantes ao Comus ainda estavam bem no underground).

Do início supostamente mais comercial com a faixa “Diana” e a sua declamação teatral de um poema de gosto duvidoso, o Acid Folk da banda já apresenta algumas das características citadas acima. Uma faixa excelente, diga-se de passagem, aonde a união das vozes com a percussão e o violino criam um clima único, explorado mais a fundo em “The Herald”, que une dedilhados com efeitos sonoros e a bonita voz de Bobbie Watson, e culminam no incrível solo de violino e flauta que ocorre durante o interlúdio instrumental da música. A faixa seguinte, um clássico do Prog Folk setentista, “Drip Drip” com sua levada praticamente ritualística e um notável crescendo ao longo dos 11 minutos, uma verdadeira viagem de ácido de variadas proporções e muitas vezes completamente fora da realidade.

O segundo lado do trabalho é razoavelmente mais tranquilo, e se inicia com “Song To Comus”, Folk europeu tribal na sua essência, com direito a intervenções de instrumentos de sopro, letras arcádicas e cânticos embriagados do melhor nível, elementos que se mantém de forma frenética em “The Bite”, aonde o Comus se aproxima bastante de bandas um pouco mais acessíveis, como o Jethro Tull na sua fase mais tresloucada. Depois do interlúdio “Bitten” (que poderia muito bem ter saído de qualquer filme obscuro europeu), o disco fecha com “The Prisoner”, que apesar das primeiras notas soando bem orientais, segue a mesma linha melódica e de estruturas mais simples dessa segunda parte do álbum, um contraponto aos experimentos das três primeiras.

Provavelmente, a banda não era exatamente o que a gravadora estava esperando e a sua música bem extravagante acabou por não achar o público de imediato. Difícil dizer sobre o cenário da época, mas o som do Comus em “FIrst Utterance” é notável: além de cuidadosamente produzido, as faixas não deixam pontas soltas, cada melodia vocal ou instrumental está no seu devido lugar, e o resultado final do disco é muito mais positivo do que de inúmeras (INÚMERAS) outras que chegaram a atingir o sucesso de vendas e estão eternizadas até hoje como um dos maiores nomes do Prog.

O relativo fracasso comercial levou a banda a se separar e voltar a trabalhar com o diretor canadense Lindsay Shonteff e a trilha sonora para seus filmes. O manager Chris Youle foi trabalhar para a Polydor em 1972, mas sempre tentando trazer o Comus de volta a tona, em parte devido a faixa “Malgaard Suite”, uma faixa bizarra finalmente lançada no novo álbum, “Out Of The Coma”, de 2012.

Metade da banda (Wootton, Hellaby e Watson) voltou brevemente para um novo álbum em 1974: o controverso “To Keep From Crying”, que novamente não atingiu o sucesso comercial esperado e deixou o Comus em hiato por longos trinta e quatro anos…

Continua na próxima semana, agora na coluna Neo Partus falando sobre “Out Of The Coma”, o inesperado novo álbum.

Comus1

First Utterance Comus

Tracklist

Lineup

Rroio

Viking oriental colecionador de discos, músico frustrado e um eterno incansável explorador dos mais obscuros confins do mundo da música.

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