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Steven Wilson – “The Raven That Refused To Sing (And Other Stories)”


Steven Wilson é um sujeito deveras incansável. Mesmo com o Porcupine Tree acumulando poeira, ele se envolveu em uma infinidade de projetos, seja com novas bandas ou simplesmente prestando um serviço ao mercado progressivo ao remasterizar alguns dos maiores clássicos do rock setentista.

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Mas estamos aqui para falar da sua carreira solo, aonde ele praticamente tem direcionado o seu foco nos últimos anos, principalmente depois da repercussão de Grace For Drowning, de 2011. O terceiro disco dessa empreitada, The Raven That Refused To Sing (And Other Stories), conta com basicamente a mesma equipe que acompanhou Wilson durante a turnê que culminou no DVD Get All You Deserve, do ano passado, além da presença de ninguém menos que Alan Parsons como engenheiro. O álbum, temático, é praticamente uma coleção de contos sobre fantasmas, que servem como guia para as dinâmicas músicas, que agregam uma gama praticamente infinita de influências.

Chega a ser inevitável à comparação, mas Luminol soa excessivamente como o Porcupine Tree mais recente, com a inserção de uma levada mais forte de jazz e a característica presença da flauta e das linhas de baixo de Nick Beggs. As interessantes seções instrumentais se desenvolvem de forma considerável, culminando na atmosférica base para os sempre carregados vocais de Wilson (fazem ainda mais sentido ao seguir o tema por trás desse álbum). E ao contrário dos aspectos da música setentistas que servem para retratar a história do homem que está sempre no mesmo lugar, todo dia, tocando a mesma música, mesmo depois da morte, Drive Home conta sobre o bloqueio de uma experiência traumática, e traz essas influências para algo muito mais contemporâneo, e ainda que as referências sejam óbvias, é uma belíssima balada, praticamente hipnótica graças aos solos de guitarra.

Porém, a frenética The Holy Drinker, com seus ritmos complexos, está muito bem encaixada para trazer de volta desse transe (de forma um tanto brusca, verdade seja dita), apenas para mergulhar em outro, muito mais confuso e perturbador, condizente com o conto sobre o fervoroso religioso alcoólatra que perde uma aposta contra o próprio diabo, algo muito mais agressivo e jazz em relação ao Storm Corrosion. E por falar em agressividade, a assustadora The Pin Drop traz uma notável violência instrumental, em relação ao restante do álbum, com sons incessantes e estourados, personificando a brutalidade sofrida pela personagem, assassinada pelo marido depois de anos de uma relação mantida apenas pela conveniência, não por um sentimento verdadeiro, que conta a sua história enquanto o seu corpo é arrastado pelas águas de um rio.

Conto semelhante está na prioritariamente acústica, e com boas doses influências do ácido folk rock inglês dos anos setenta, The Watchmaker, aonde o relojoeiro, focado apenas no seu ofício, assassina a sua esposa depois de 50 anos e a enterra no chão de sua oficina. Porém, o seu fantasma permanece, alegando que não iria abandoná-lo depois de todo esse tempo, e os sentimentos de melancolia e desespero são exatamente representados pelas melodias criadas pelas linhas de teclado e de voz, que crescem exponencialmente ao longo dos quase 12 minutos. E essa controversa sensação permanece em The Raven That Refused To Sing, o momento mais atmosférico do álbum, que ganhou um excelente vídeo representando o conto final sobre o velho que acredita que o corvo é a encarnação da sua falecida irmã mais velha.

Como um bom livro, o álbum encerra e ainda deixa um incômodo sentimento, como se as garras de cada um dos contos continuassem cravadas na sua mente. E exatamente por isso, The Raven That Refused To Sing (and other stories) não pode simplesmente ser encarado como um simples álbum musical e tratado como tal. A audição deve ser extremamente cuidadosa, acompanhando o desenvolvimento de cada faixa, lendo as letras e sabendo do que se trata cada uma das músicas/contos (o que torna ainda mais justificável a edição com o encarte de 128 páginas), levando a experiência de absorver o disco para um outro nível, muito além da audição.

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The Raven That Refused To Sing (And Other Stories) Steven Wilson

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Tracklist

01. Luminol
02. Drive Home
03. The Holy Drinker
04. The Pin Drop
05. The Watchmaker
06. The Raven That Refused To Sing

Lineup

Steven Wilson — vocal / Mellotron / teclado / guitarra
Nick Beggs — baixo / Chapman Stick
Guthrie Govan — guitarra
Adam Holzman — Fender Rhodes / órgão Hammond / piano / Minimoog
Marco Minnemann — bacteria
Theo Travis — flauta / saxofones / clarinete
Jakko Jakszyk — vocal
Alan Parsons — Haw-haw guitar
Dave Stewart e London Session Orchestra — arranjos orquestrais
Rroio

Viking oriental colecionador de discos, músico frustrado e um eterno incansável explorador dos mais obscuros confins do mundo da música.

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