Progcast - Sua Dose Semanal de Rock Progressivo

Sigur Rós – “Kveikur”


Na gélida Reykjavík, capital da ilha vulcânica Islândia, o Sigur Rós vem desde 2004 sendo um dos alicerces do post rock, no período entre o fim da década de noventa e os anos seguintes a ela, com a sua fórmula de texturas atmosféricas, com um teor contemplativo catalisado pela utilização das vozes e do vonlenska.

SigurRos

Apesar de ter entrado em um perigoso hiato em 2009 e deixando uma obra incompleta pelo caminho, no seu devido tempo o quarteto retomou as atividades, lançando o trabalho ao vivo Inni e o aguardado Valtari, que apesar de manter a palavra de ser ainda mais tranqüilo do que os álbuns anteriores, parecia funcionar completamente apenas se aliados aos vídeos que os acompanhavam.

Contudo, meses depois e sem um de seus integrantes (de suma importância para a sua musicalidade – o tecladista Kjartan Sveisson), o agora trio islandês começa a pensar para a frente, na tentativa de não se manter enclausurado em sua própria identidade. E o resultado está em Kveikur, o seu sétimo disco de estúdio, lançado em 2013 pela XL Recordings, a mesma responsável pelo Radiohead e The XX, apenas para citar alguns.

Extremamente carregada, Brennisteinn abre o disco de forma pesada, densa, com a linha de baixo criando um tenso paradoxo com a tranquilidade das texturas atmosféricas e o onipresente falsete de Jónsi em meio a uma estrutura mais reta, porém funcional, mesmo com poucas variações. Sem fugir desse modelo, a seguinte Hrafntinna traz um espírito relativamente diferente, baseado em infinitas camadas de arranjos orquestrais e remetendo diretamente às trilhas sonoras, enquanto Ísjaki soa quase como uma canção folclórica ou ritualística, cantada por alguma tribo antiga, graças aos incessantes e repetitivos versos e pelo trabalho de percussão.

Yfirborð, mais curta, mostra um Sigur Rós mais próximo ao post rock etéreo, atmosférico e com sutis doses de eletrônico, semelhante ao apresentado em seus álbuns anteriores, e um tanto quanto mais leve em relação à Stormur, que apresenta os mesmos elementos, porém executados em ritmo mais acelerado, distorcido e com margens claramente definidas. Isso se torna ainda mais claro no caos estourado da faixa Kveikur, e em Rafstraumur, que acaba por ser uma versão mais dinâmica e agressiva do próprio single Ísjaki.

O interessante crescendo em Bláþráður, como uma continuação da música anterior, leva a campos ainda mais profundos e pesados, com sentimentos um tanto quanto positivos, algo não tão corriqueiro no estilo. Já Var é a música de fundo conduzida por um loop de piano e ruídos, certeiro tanto para finalizar o disco quanto deixar uma incômoda impressão de que é apenas um interlúdio, um elo de ligação com algo que ainda está por vir.

A principal premissa de Kveikur sempre deixou bem claro que a intenção dos islandeses era sair um pouco da repetição na qual a sua música havia se perdido nos últimos trabalhos, buscando uma sonoridade mais “agressiva” e direta, sem descaracterizá-los. E quanto a isso, não se pode negar que eles cumpriram o prometido de uma forma bem interessante.

De estruturas mais simples, uma voz de melodias bem definidas, mudanças coerentes e bem fechadas, aonde o trabalho de percussão e o baixo ditam ditatorialmente os ritmos, com as inúmeras linhas de guitarra e cordas criando uma base apenas ao fundo (não é questão de diminuir a sua importância, mas sim de equilibrar as coisas sob outra linha de pensamento). O resultado da soma destes fatores mostra um Sigur Rós com uma identidade em metamorfose, com um espírito de quem está buscando um lugar diferente, e, se eles demoraram muito para fazer isso, é irrelevante. O importante é que o processo agora foi iniciado, e pode haver algo realmente grande após esta jornada.

SigurRos

Kveikur Sigur Rós

1234

Tracklist

01. Brennisteinn
02. Hrafntinna
03. Ísjaki
04. Yfirborð
05. Stormur
06. Kveikur
07. Rafstraumur
08. Bláþráður
09. Var

Lineup

Jón Þór Birgisson – vocal / guitarra
Georg Hólm – baixo
Orri Páll Dýrason – bateria

Eiríkur Orri Ólafsson - arranjos de metais
Daníel Bjarnason - arranjos de cordas
Sigrún Jónsdóttir – metais
Eiríkur Orri Ólafsson – metais
Bergrún Snæbjörnsdóttir – metais
Borgar Magnason – cordas
Margrét Árnadóttir – cordas
Pálína Árnadóttir – cordas
Una Sveinbjarnardóttir – cordas
Þórunn Ósk Marinósdóttir – cordas
Rroio

Viking oriental colecionador de discos, músico frustrado e um eterno incansável explorador dos mais obscuros confins do mundo da música.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *