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Rocartê – “Lua de Tambor”


Não coincidentemente formada dentro de um atelier em 2008, o Rocartê (união de “rock” e “arte”, sacaram?) é um grupo que desde o seu início tratou a idéia musical como um sentido mais amplo, extrapolando para outras manifestações artísticas, sempre da forma mais artesanal possível.

Rocartê

Agregando todas as suas influências das décadas de 60 e 70 (novamente, não apenas no que se trata da música), em 2013 eles lançam o primeiro disco físico, intitulado Lua de Tambor, que foi gravado da forma mais natural possível e disponibilizado gratuitamente em seu site oficial.

A introdução ao trabalho é feita pela instrumental Espírito Santo I, uma viagem etérea de timbres cuidadosamente ruidosos, que afunda gradativamente e sem parar no space rock até a faixa Coragem, curta e dotada de uma climática e extremamente distorcida cadência. Nuvem, porém, explora o contraste entre insistentes melodias que beiram a psicodelia com momentos de total contemplação, uma ideia parecida com os esfumaçados toques de blues na seguinte, Café.

Logo após os sons desconexos do minuto de Esperando Leonardo, o ritmo constante com razoável veia folk se destaca na quase inocente Joãos, da mesma forma que a rústica Violão, que transporta imediatamente para algum entardecer entre a década de cinquenta e sessenta. E por falar nessas referências temporais, a faixa Passagem funciona de forma praticamente metalinguística, com um Rocartê envolto completamente pelo progressivo da época áurea, que irá finalizar aos poucos em mais uma curta passagem, Ver Ela Passar.

Resgatando agora um pouco de MPB, porém sem apelar para nenhuma complexidade maior, Sem Nada Ter soa mais como um reto interlúdio antes da pesadíssima Material Guardado, aonde ritmos brasileiros se confundem novamente com algo que parece ter vindo da Inglaterra durante a década de setenta. Apesar da obviedade, Samba no Carnaval carrega um bem vindo potencial ácido sobre uma base melancólica e solitária, bem diferente das ligeiras nuances de samba que aparecem pra valer em Medo, em meio a uma aura carregada de várias sutis doses psicodélicas, assim como o instrumental Espírito Santo II, que encerra o ciclo deste álbum de forma solta e barulhenta.

Definindo Lua de Tambor em apenas uma palavra, sem a menor dúvida, seria “rústico”. Um álbum carregado por uma interessante e bem liberdade proporcionada por experimentos devidamente controlados. Claro, alguns timbres por vezes soam um tanto quanto distorcidos demais, equilibrados de forma nem tão convencional – mas isso de fato parece ser inerente à própria proposta do Rocartê.

E essas variações, e a mescla bem sutil de estilos, de space rock a samba, sempre tendo a psicodelia (e um pouco de progressivo, por que não?) como ponto de ligação entre o instrumental quase improvisado e as letras simples e eficientes, fazem com que a banda supere qualquer possível limitação técnica no seu processo de gravação e se aproveite disso para fortalecer suas características.

Um ótimo disco para ouvir enquanto o sol desce.

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Lua de Tambor Rocartê

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Tracklist

01. Espírito Santo I
02. Coragem
03. Nuvem
04. Café
05. Esperando Leonardo
06. Joãos
07. Violão
08. Passagem
09. Ver Ela Passar
10. Sem Nada Ter
11. Material Guardado
12. Samba no Carnaval
13. Medo
14. Espírito Santo II

Lineup

Pedro Gutierres – vocal / guitarra / bateria / baixo / piano
Érico Alencastro – baixo / órgãos de ar
Leonardo Schons – órgão / piano / escaleta / efeitos / sintetizadores
Fábio Duarte
Rroio

Viking oriental colecionador de discos, músico frustrado e um eterno incansável explorador dos mais obscuros confins do mundo da música.

3 respostas para “Rocartê – “Lua de Tambor””

  1. Diego Camargo disse:

    Boa resenha Rroio, com certeza. Mas nao posso concordar com voce dando 4 estrelas pro disco.

    Entendo perfeitamente que o ‘rústico’ está presenta na proposta da banda. Mas o som contido no disco nao é rústico e sim amador.
    É praticamente uma demo mal gravada. E mesmo que a banda tenha boas composicoes isso nao muda o fato de que fica MUITO difícil ouvir esse disco cheio de distorcoes, sem producao e com timbres por vezes beirando o estapafúrdio, especialmente a bateria.
    Especialmente nos dias de hoje que é tao fácil gravar um disco com um mínimo de qualidade.

    Bom, só queria jogar os meus 5 centavos já que vendo o disco aqui resolvi ouvir, mas voce me enganou com essas 4 estrlas rs.

  2. Sayuri Kubo disse:

    Adorei o texto, acho que você teve muita subjetividade e entendeu muito bem o que a banda quis. Acompanhei de perto a produção do álbum, e é justamento muitas referências que os guris queriam trazer pra dentro de um álbum. Foi um trabalho duro de muitos meses (quase um ano). Mas, claro, como todos os trabalhos autorais e principalmente, fundamentados um pouco no experimental, tem muita gente que não vai entender nem gostar. Mas tudo bem, a música tá aí pra isso mesmo! Alguns amam, outros odeiam, por isso que é genial.

  3. Daniel disse:

    Diego, me permita discordar de você. Acho justamente que uma das coisas que este disco tem de melhor é sua intenção de buscar uma sonoridade acima de tudo expressiva. Os timbres “amadores” de bateria são sensacionais. Como você mesmo disse, é muito fácil hoje em dia gravar tudo bem gravado. Pois bem, essa banda não quis tomar o caminho mais fácil. Este disco, se fosse “bem gravado”, com tudo limpinho, sem as nuances todas que a proposta de gravação possui, não seria nem de perto a mesma coisa.

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