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Arjen Anthony Lucassen – “Lost In The New Real”


Arjen Lucassen é o mastermind por trás de alguns dos mais interessantes projetos do Prog Metal desde a década de 90: desde os atmosféricos Ambeon e Stream Of Passion até o pesadíssimo Star One, passando pelo mais famoso e interessante: as Metal Opera do Ayreon e o seu mega conceito sci-fi.

Dezoito anos depois de “Pools Of Sorrow, Waves Of Joy”, “Lost In The New Real” é o primeiro álbum solo do músico,, aonde ele assume todos os vocais, novamente com um conceito bem ficção científica, baseado naqueles filmes (um tanto quanto galhofas) da década de 80.

A voz do ator Rutger Hauer abre o disco interpretando o personagem Voight Kampff (uma referência à Blade Runner – perceberam as ligações?), dando as boas vindas ao Mr. L (lembram dele do álbum “01”?) ao “novo mundo” e pede para que ele descreva todas as suas memórias em “The New Real”, faixa bem atmosférica, mantendo um pouco a tendência do último disco do Ayreon. “Pink Beatles In A Purple Zeppelin” começa com a questão “por que criar mais música se tudo já foi feito antes?” e a forma como Arjen monta essa faixa é notável, utilizando de passagens que remetem às bandas citadas no título e como ele mesmo diz “but it feels like something new…”. A música seguinte “Parental Procreation Permit” , bem soturna e robótica, inserida no conceito do álbum, mostra uma realidade onde foi instituído o controle de natalidade agressivo por causa das condições do planeta, e só aqueles com qualificação comprovada eram autorizados a ter filhos, enquanto “When I’m A Hundred Sixty-Four” traz uma forte críticas às pessoas que trabalham a vida inteira e acabam apenas se importando com o presente, sem pensar em como estarão no futuro, sobre arranjos Folk/acústico muito interessantes. Com boas doses de Neo Progressivo, “E-Police” aborda a liberdade na internet, e mesmo com o acento futurista, soa bem atual, graças aos dramas de SOPA, PIPA, ACTA e coisas do gênero.

“Don’t Switch Me Off”, construída sobre aqueles efeitos sintetizados bem atmosféricos que Arjen sempre utilizou no Ayreon soa melancólica, como alguém viciado em algum tipo de prostituição virtual (talvez?), enquanto “Dr. Slumber’s Eternity Home” lembra vagamente bandas que misturam um Rock mais básico com arranjos orquestrais / Folk / medievais, mais ou menos na linha do Wishbone Ash. E o que dizer de Lucassen flertando fortemente com Gothic Rock em “Yellowstone Memorial Day”?, clima que combinou bem com a letra (sobre aquele conceito de “a Terra vai muito bem, a humanidade é que está mal”). A balada “Where Pigs Fly” é outra faixa bem orquestrada, com uma das melhores sacadas líricas da carreira de Arjen, com os maiores “E se” da história da cultura Pop. O primeiro disco fecha com a épica “Lost In The New Real” (que já começa com a melhor narração de Rutger Hauer), aonde Mr. L é deixado na realidade virtual, um experimento do cientista maluco, tendo como plano de fundo uma faixa que alterna entre o Rock Progressivo mais tranquilo da década de 70 e ótimas linhas de Prog Metal e Space Rock. A forma como a música termina, com o personagem se questionando se ele mesmo é real ou não, pedindo para ser tirado dali, com a voz cada vez mais artificial chega a arrepiar, principalmente pelo fato de o álbum inteiro deixar o ouvinte em um nível de imersão poucas vezes visto (ou ouvido, no caso).

Bem climática, “Our Imperfect Race” abre o segundo disco como se fosse um epílogo do último álbum do Ayreon, “01011001” (inclusive com passagens e timbres que claramente remetem à esse disco), e o lado Prog Metal aparece em evidência na mais do que excelente versão de “Welcome To The Machine”, do Pink Floyd, possivelmente a melhor dentre as que tentam injetar peso no clássico de Roger Waters. A balada “So Is There No God?”, com mais alguns questionamentos sobre a que ponto a humanidade está chegando, tem nuances bem únicas, elementos e estruturas que Arjen nunca utilizou em suas músicas, seguida pela versão de “Veteran Of The Psychic Wars”, do Blue Öyster Cult. Mais uma balada bem diferente (realmente parece saída de uma banda de Pop Rock americano em alguns momentos), “The Social Recluse” vem antes de “The Battle Of Evermore”, um dos maiores clássicos do Led Zeppelin. A maluquice cósmica retorna na bizarríssima e divertida “Space Hotel”, basicamente um Hard Rock futurista bem despojado, que dá passagem para mais um bom cover, dessa vez para a belíssima “Some Other Time”, do Alan Parsons Project. O trabalho fecha com a balada bem Prog Metal “You Have Entered The Reality Zone” e, por falar em maluquice, outra versão para “I’m The Slime”, do Frank Zappa, com direito a megafone e tudo.

Arjen Lucassen basicamente enrolou mais de dez anos para lançar um álbum solo, aonde ele cantasse todas as faixas e fosse responsável por todos os instrumentos (segundo o próprio, todas as ideias acabavam virando outro álbum do Ayreon, Star One ou algum outro de seus projetos). Pois bem, em “Lost In The New Real” é como se ele pegasse tudo, mas tudo MESMO que já fez em conjunto com outros artistas nos projetos, as suas influências mais bizarras e ótimas sacadas de humor e cultura Pop, e juntasse em uma mega fórmula megalomaníaca. Esse é o resultado: um trabalho equilibrado, sem apelos, com um conceito bem definido que consegue prender o ouvinte a cada detalhe instrumental e lírico. Um tiro certeiro em uma época em que a cultura Pop dos anos 80 está mais evidente do que nunca, e um marco não apenas na carreira do músico holandês, mas a prova definitiva que Arjen Anthony Lucassen é um gênio do Progressivo atual.

Arjen

Lost In The New Real Arjen Anthony Lucassen

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Tracklist

01. The New Real
02. Pink Beatles In A Purple Zeppelin
03. Parental Procreation Permit
04. When I’m A Hundred Sixty-Four
05. E-Police
06. Don’t Switch Me Off
07. Dr. Slumber’s Eternity Home
08. Yellowstone Memorial Day
09. Where Pigs Fly
10. Lost In The New Real
11. Our Imperfect Race
12. Welcome To The Machine
13. So Is There No God?
14. Veteran Of The Psychic Wars
15. The Social Recluse
16. The Battle Of Evermore
17. The Space Hotel
18. Some Other Time
19. You Have Entered The Reality Zone
20. I’m The Slime

Lineup

Arjen Anthony Lucassen – Vocal / Guitarra / Baixo / Teclado
Rutger Hauer – Narrações
Ed Warby – Bateria
Rob Snijders – Percussão
Bem Mathot – Violino
Maaike Peterse – Violoncelo
Jeroen Goossens – Flauta
Elvya Dulcimer – Vocal / Dulcimer
Gjalt Lucassen – Megafone
Rroio

Viking oriental colecionador de discos, músico frustrado e um eterno incansável explorador dos mais obscuros confins do mundo da música.

3 respostas para “Arjen Anthony Lucassen – “Lost In The New Real””

  1. Carlos disse:

    Disco sensacional esse cara precisa de mais divulgação.

  2. Muito boa Review Rroio! Meu, esse album é sensacional. Ouvi ele sem ler as letras, e achava num nivel 8 e pouco, mas depois lendo junto foi fucking awesome! Um dos melhores de 2012!

  3. […] Portuguese RoadToMetal Progcast.com.br (10/10) RuidoSonoro.com […]

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